u os cabelos dos olhos.
- Minha mãe tem razão. Ainda temos Correrrio.

Daenery

As moscas voavam lentamente em volta de Khal Drogo, com
as asas zumbindo, um ruído baixo, no limiar da audição, que
enchia Dany de terror. O sol ia alto e impiedoso. O calor
tremulava em ondas que subiam dos afloramentos rochosos
de colinas baixas. Um estreito fio de suor escorria lentamente
entre os seios inchados de Dany. Os únicos sons que se
ouviam eram o ruído regular dos cascos dos cavalos, o tinir
ritmado dos sinos nos cabelos de Drogo e as vozes distantes
atrás deles.
Dany observou as moscas. Eram grandes como abelhas,
volumosas, arroxeadas, brilhantes. Os dothrakis as
chamavam de moscas de sangue. Viviam em pântanos e
lagoas de águas paradas, sugavam sangue quer de homens
quer de cavalos, e punham os ovos nos mortos e nos
moribundos. Drogo as odiava. Sempre que alguma se
aproximava dele, a mão disparava, rápida como um ataque
de serpente, e fechava-se à sua volta. Nunca o vira falhar.
Mantinha a mosca dentro de seu enorme punho durante o
tempo suficiente para ouvir seus frenéticos zumbidos. Depois,
os dedos apertavam-se, e quando voltava a abrir a mão, a
mosca era apenas uma mancha vermelha na palma.
Agora, uma rastejava pela garupa de seu garanhão, e o cavalo
deu uma sacudidela irritada na cauda para enxotá-la. As
outras voaram em volta de Drogo, cada vez mais perto. O
khal não reagiu. Os olhos fixavam-se em distantes colinas
marrons, e as rédeas estavam soltas nas mãos. Sob o colete
pintado, um emplastro de folhas de figueira e lama seca azul
cobria a ferida que tinha no peito. As ervanárias o tinham
feito. O cataplasma de Mirri Maz Duur ardia e provocava-lhe
comichão, e ele o arrancara há seis dias, amaldiçoando-a e
chamando-a de maegu O emplastro de lama era mais
calmante, e as ervanárias fizeram também leite de papoula
para ele. Tinha bebido muito nos últimos três dias; quando
não era leite de papoula, era leite de égua fermentado ou
cerveja picante.
Mas quase não tocava na comida, e agitava-se e gemia
durante a noite. Dany via como seu rosto se tornara cansado.
Rhaego estava inquieto dentro de sua barriga, dando
pontapés como um garanhão, mas nem isso despertava o
interesse de Drogo como antes. Todas as manhãs, os olhos
dela encontravam novas rugas de dor em seu rosto quando
acordava de seu sono perturbado. E agora aquele silêncio.
Estava ficando assustada. Desde que tinham montado, de
madrugada, ele não dissera uma palavra. Quando ela falava,
não obtinha nenhuma resposta além de um grunhido, e desde
o meio-dia nem isso.
Uma das moscas de sangue pousou na pele nua do ombro do
khal. Outra, voando em círculos, pousou em seu pescoço e
rastejou para cima, na direção da boca. Khal Drogo oscilava
na sela, fazendo soar as campainhas, enquanto o garanhão
prosseguia o caminho num passo regular.
Dany empurrou os calcanhares contra a sua prata e
aproximou-se.
- Senhor - disse em voz suave. - Drogo. Meu sol-e-estrelas.
Ele não pareceu ouvir. A mosca de sangue rastejou para
baixo do bigode pendente e instalou-se na prega ao lado do
nariz. Dany arfou:
- Drogo - estendeu a mão, desajeitadamente, e tocou seu
braço.
Khal Drogo cambaleou sobre a sela, inclinou-se devagar, e
caiu pesadamente do cavalo. As moscas espalharam-se por
um segundo, e depois regressaram, aos círculos, pousando em
cima dele.
- Não - disse Dany, puxando as rédeas. Sem prestar atenção à
barriga pela primeira vez, saltou do cavalo e correu para ele.
A erva em sua pele estava marrom e seca. Drogo gritou de dor
quando Dany se ajoelhou a seu lado. A respiração raspava-
lhe, áspera, na garganta, e ele olhou para ela sem reconhecê-
la.
- Meu cavalo - arquejou. Dany enxotou as moscas de seu
peito, esmagando uma como ele teria feito. A pele dele ardia
sob seus dedos.
Os companheiros de sangue do khal seguiam logo atrás. Dany
ouviu Haggo gritar enquanto se aproximava a galope.
Cohollo saltou do cavalo.
- Sangue do meu sangue - disse, enquanto caía de joelhos. Os
outros dois continuaram montados.
- Não - grunhiu Khal Drogo, lutando nos braços de Dany. -
Tenho de montar. Montar. Não.
- Ele caiu do cavalo - disse Haggo, olhando fixamente para
baixo. O largo rosto estava impassível, mas a voz era de
chumbo.
- Não deve dizer isso - disse-lhe Dany. - Já avançamos o
bastante hoje. Acamparemos aqui.
- Aqui? - Haggo olhou em volta. A terra era parda e
ressequida, inóspita. - Isto não é lugar para acampar.
- Não cabe a uma mulher nos pedir para parar - disse Qotho -,
nem mesmo uma khaleesi.
- Acampamos aqui - repetiu Dany. - Haggo, diga-lhes que
Khal Drogo ordenou a parada. Se alguém perguntar por que,
diga que o meu tempo se aproxima e não consigo prosseguir.
Cohollo, traga os escravos, eles devem montar a tenda do khal
de imediato. Qotho...
- Não me dê ordens, khaleesi - disse Qotho.
- Procure Mirri Maz Duur - disse-lhe ela. A esposa de deus
devia estar entre os outros Homens-Ovelhas, na longa coluna
de escravos. - Traga-a até mim com o seu cofre.
Qotho lançou-lhe um olhar int